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]]>Eu sempre tive um desejo maluco de morar em outro país, viver em outra cultura. Mas, confesso que nunca havia pensado em morar na Itália ou aprender italiano. Acontece que tudo me levou a escolher vir para cá e hoje eu digo com 110% de certeza que não poderia ter sido melhor. Morar aqui foi além do âmbito profissional, é um constante intercâmbio cultural, histórico, pessoal e emocional. Peguei vários trejeitos italianos, como falar com as mãos e responder com expressões, como “Ow”, “Boh”. Pedir uma xícara de “cappuccio” no balcão do bar virou rotina. E fiquei mais apaixonada pela confeitaria do que nunca.
Neste quase um ano de Itália com meu marido e nosso cachorro, conheci muitas regiões, rodei muito de carro por aí aprendendo, vivendo e, principalmente, comendo o que é local. Comida aqui é coisa séria. Sabe aquela ideia de valorizar os produtos locais e a sazonalidade? Aqui existem siglas (definidas por lei) só para isso: D.O.P., I.G.P., T.G.P, km0. Eles falam sobre comida o tempo inteiro e estão sempre discutindo (calorosamente) sobre. Mas, o que mais me pegou foi o respeito ao alimento, ao tempo, à origem e as tradições, principalmente aquelas passadas de geração em geração, das receitas típicas das regiões às especiais de família. É próprio amor.
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]]>Procurando pela Internet, encontramos o Antica Moka na saída da cidade. O restaurante está em um casarão antigo, com diversas salas, todas mantendo um clima aconchegante, como estar na casa da “Nonna”. Éramos cinco pessoas e pedimos dois menus degustação (60€ cada), um menu degustação marinho (65€) e dois pratos a la carte.
O restaurante é tão incrível que ficamos surpresos com todos os pratos que vieram. Logo de início eles trouxeram mimos de boas vindas: sopa verde com cogumelo, arroz negro para as vegetarianas da mesa e bolinhos fritos de jamón. Depois de abrir nosso apetite, chegaram duas tábuas de pães diversos com azeite de oliva da região. A sucessão de pratos do menu (5 pratos + sobremesa) foi impecável, com direito a vieiras grelhadas, risoto de camarão, carne de porco cozida em baixa temperatura com azeite balsâmico, tagliatelle de ragu, atum selado e arroz negro, entre muitos outros.

O destaque da noite foi o prato a la carte que minha mãe pediu: risoto de morangos com menta (18€). Na hora que ela escolheu, todos ficamos um pouco receosos, mas mal sabíamos como o prato nos surpreenderia! Até o fim da viagem esse continuou sendo o prato preferido! Antes de chegarem as sobremesas, nos ofereceram um “pré dessert”, para mudar nosso paladar para os próximos pratos. No final, com a conta, eles ainda trouxeram uma linda taça repleta de suspiros caseiros, totalizando em 10 pratos diferentes que provamos na noite!
Com direito a visita da chef, Anna Maria Barbieri, terminamos a noite maravilhados com o atendimento, com o local e obviamente com a comida impecável que eles servem. Uma linda releitura da comida caseira, apresentada de maneira refinada, com muito sabor e matérias primas de extrema qualidade.

Fotos: Fábio Estelita
Antica Moka: Via Emilia Est, 1496, 41126 Modena MO, Itália
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]]>Para início de conversa, a Sicília é uma ilha vulcânica. E tanto a separação do continente quanto a singularidade da paisagem local ou mesmo a proximidade da África, podem ser apontados como os responsáveis por uma atmosfera incomparável a qualquer outra região italiana. Fala-se italiano, mas é possível sentir claramente que a alma siciliana, e principalmente seu dialeto, é mais diversa, presente e intensa que a identidade unificadora da bandeira verde, branca e vermelha.
Em termos de gastronomia, as influências dos vários povos que passaram por ali ainda persistem, sendo as referências árabes na culinária local as mais marcantes. Foram eles que trouxeram as laranjas e limões, frutos icônicos sicilianos. Dizem também que foram os árabes que misturaram a neve do Etna com suco de frutas e cana de açúcar e criaram a granita e o sorvete bem ali. Aliás, a manipulação bem-sucedida do açúcar na Sicília criou a reputação indiscutível dos doces locais.

E claro, uma ilha é circundada de água do mar e por isso a gastronomia local é fortemente dependente da pesca. Mas, a terra ali também é rica e próspera, propicia o cultivo de muitas ervas aromáticas (orégano, rosmarinho, menta), cítricos, amêndoas, pistache e azeitonas. Graças à imigração hebraica e a influência do judaísmo, os sicilianos aprenderam a cozinhar “de maneira apropriada”, fritando o alho no azeite de oliva para dar mais gosto aos vegetais e aprendendo que do alimento nada se joga fora, nem mesmo a parte mais insignificante. Com a dominação normanda, a caça dos animais silvestres e técnicas culinárias se juntaram à tradição e os espanhóis inseriram as frituras. Dos exploradores da China e da Índia vieram as berinjelas, base de muitas preparações da região.
Tudo isso para dizer que com tanta riqueza gastronômica, a cozinha siciliana é o espelho da dieta mediterrânea tradicional, considerada como Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, tombada pela Unesco em 2008. Nem falemos dos monumentos históricos e igrejas, porque senão esse texto não vai ter fim.
SE APAIXONAR POR PALERMO
Tive a oportunidade de passar quatro dias em Palermo. Pouquíssimo tempo para cobrir a beleza dos monumentos e a pluralidade das delícias. Palermo tem dessas coisas de cidade quente: vida notívaga e em defasagem com o resto do mundo. Por isso, tivemos que adaptar a nossa rotina para acordar mais tarde, saltando algumas visitas e começando o dia às onze e meia, sempre com um café lungo e bombas fritas roladas no açúcar e recheadas com creme. E obviamente, o suco de laranja sanguínea espremido na hora.

Não sei o que faz com que esse creme, localmente chamado de crema pasticcera, seja tão perfeito, mil vezes melhor que o recheio do nosso sonho de padaria. Acho que essa delícia concorre apenas com a ricota local, e apenas para ela, perde. A ricota siciliana é base para vários doces clássicos como a cassata ou o cannolo. Esse último me surpreendeu.
Explico: eu detesto doces em geral. Verdade. Não me ligo muito em açúcar ou em chocolate (EU SEI, sou estranha). Então, eu sempre via essas pessoas viajando para a Sicília e falando desse tal de cannolo com uma adoração digna das procissões católicas das igrejas italianas. Eu desdenhava, falava que não tinha como um doce ser isso tudo, porque era um doce apenas. Até tinha provado um ou outro em Paris e realmente, não tinha graça.
Tive que morder a língua. Lamber os beiços, quase chorar de alegria e me entupir dessa coisa divina que eu nunca vi igual em lugar nenhum. Qualquer coisa que você experimentar fora da Sicília com o mesmo nome não vale. Ali, e apenas ali, você está a dois passos do céu. Eu acho. E uma foto não consegue fazer jus à experiência gustativa.

Fotos: Edouard Ormancey
Canolissimo: Via Vittorio Emanuele, 407
(Continua.)
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